A porta
Foi a pior briga em dezenove anos de casamento.
Ele disse que se sentia um caixa eletrônico dentro da própria casa. Ela disse que se sentia uma empregada que dormia com o patrão.
Ele pegou a chave. Foi até a porta. Abriu.
E ela ficou parada na sala, com a mão tremendo, achando que era ali que dezenove anos acabavam.
Ele parou na soleira. Ficou de costas cinco segundos.
E fechou a porta de novo. De dentro.
Olhou pro chão, com a chave ainda na mão, e falou baixinho — do jeito de quem não está acostumado a falar essas coisas:
“Posso tentar de novo?”
Naquela noite, sentados na cozinha até quase três da manhã com café requentado, ela descobriu que ele estava com medo de perder o emprego havia dois meses. E não tinha conseguido contar pra ninguém.
Dois meses.
Ela tinha passado dois meses achando que ele estava se afastando dela.
Os dois estavam sozinhos. No mesmo quarto. Pelo mesmo motivo.
Nem todo homem que vai até a porta está indo embora de você.
Alguns só nunca aprenderam outro jeito de sair de uma briga.